Vladímir Ilich Uliánov LENINE
Que fazer?
Problemas candentes do nosso
movimento
«... A luita de partido dá ao partido força e vitalidade;
a maior prova da fraqueza de um partido é o seu amorfismo
e o esbatimento de fronteiras nitidamente delimitadas;
o Partido reforça-se depurando-se ...»
(Extracto de umha carta
de Lassalle a Marx, 24 de Junho de 1852)
Escrito no Outono de 1901-Fevereiro de 1902.
Publicado em Março de 1902 como livro separado em Estugarda.
Obras Completas de V. I. Lenine, 5.ª ed. em russo, t. 6, pp 1-192
Segundo o plano inicial do autor, esta brochura devia ser consagrada ao desenvolvimento pormenorizado das ideias expostas no artigo Por Onde Começar? 1 Iskra 2, n.° 4, Maio de 1901). Antes de mais, devemos desculpar-nos perante o leitor polo atraso verificado no cumprimento da promessa feita nesse artigo (e repetida nas respostas a numerosas perguntas e cartas particulares). Umha das causas deste atraso foi a tentativa de unificaçom de todas as organizaçons social-democratas no estrangeiro, empreendida em Junho do ano passado (1901). Era natural que se aguardasse os resultados desta tentativa, porque se ela tivesse tido êxito teria sido talvez necessário expor sob um ángulo um pouco diferente as concepçons do Iskra em matéria de organizaçom; em todo o caso este êxito teria prometido que se ia pôr fim, muito rapidamente, a existência de duas correntes na social-democracia russa. Esta tentativa, como o leitor sabe, fracassou e, como mais adiante procuraremos demonstrar, nom podia terminar de outra maneira, depois da nova viragem da Rabótcheie Dielo 3, no seu número 10, para o «economismo» 4. Tornou-se absolutamente necessário travar umha luita decisiva contra essa tendência vaga e mal definida, mas, por isso mesmo, tanto mais persistente e susceptível de ressuscitar em variadas formas. Deste modo o plano inicial desta brochura foi modificado e consideravelmente alargado.
O seu tema principal devia abarcar os três problemas postos no artigo Por Onde Começar?, a saber: o carácter e o conteúdo principal da nossa agitaçom política; as nossas tarefas de organizaçom; o plano para a criaçom, simultaneamente e por diversos lados, de umha organizaçom de combate de toda a Rússia. Estes problemas interessam, desde há muito, ao autor, que já tentou levantá-los no Rabótchaia Gazeta 5, quando de umha das tentativas, sem êxito, para recomeçar a sua publicaçom (ver o cap. V). Mas a intençom de nos limitarmos, nesta brochura, à análise destes três problemas e de expor as nossas ideias, tanto quanto possível sob umha forma positiva, sem recorrer ou quase sem recorrer à polémica, mostrou-se completamentamente irrealizável, por duas razons. Por um lado, o «economismo» revelou-se muito mais vivaz do que o supúnhamos [empregamos o termo «economismo» no seu sentido amplo, como já foi explicado no n.° 12 do Iskra (Dezembro 1901) no artigo Umha Conversa com os Defensores do Economismo, artigo que traça, por assim dizer, um esboço da brochura que apresentamos ao leitor]. Tornou-se indubitável que as diferentes opinions sobre a maneira de resolver estes três problemas se explicam muito mais polo antagonismo radical entre as duas tendências da social-democracia russa do que por divergências de pormenor. Por outro lado, a perplexidade dos «economistas» ao ver que o Iskra aplicava de facto as nossas concepçons mostrou à evidência que freqüentemente falamos linguagens literalmente diferentes; que, por conseqüência, nom podemos chegar a nengum acordo sem começar ab ovo 6, que e necessário tentar umha «explicaçom» sistemática, sob a forma mais popular possível e ilustrada com o maior número possível de exemplos concretos, com todos os «economistas» sobre todos os pontos capitais das nossas divergências. E resolvim fazer esta tentativa de «explicaçom» com plena consciência de que isto aumentaria consideravelmente as dimensons desta brochura e atrasaria o seu aparecimento, mas nom vim qualquer outra possibilidade de cumprir a promessa que figem no artigo Por Onde Começar?. Ao pedido de desculpa por este atraso, devo ainda juntar as desculpas polos enormes defeitos da forma literária desta brochura: tivem de trabalhar com extrema precipitaçom e fum, por outro lado, freqüentemente interrompido por todo o género de outros trabalhos.
A análise dos três problemas atrás indicados continua a ser o tema principal da brochura, mas tivem de começar por dous outros problemas de ordem mais geral: por que motivo umha palavra de ordem tam «inocente» e «natural» como a «liberdade de crítica» é para nós um verdadeiro grito de guerra? Por que nom podemos chegar a acordo nem sequer sobre o problema fundamental do papel da social-democracia em relaçom com o movimento espontáneo de massas? Além disso, a exposiçom das minhas ideias sobre o carácter e o conteúdo da agitaçom política converteu-se numha explicaçom da diferença entre política trade-unionista e política social-democrata, e a exposiçom das minhas ideias sobre as tarefas de organizaçom numha explicaçom da diferença entre os métodos artesanais de trabalho, que satisfai os «economistas», e a organizaçom de revolucionários que consideramos indispensável. Em seguida, insisto, mais umha vez, no «plano» de um jornal político para toda a Rússia, tanto mais que as objecçons que tem sido feitas contra ele som inconsistentes e nom se deu umha resposta a fundo à questom posta no artigo Por Onde Começar?: como podemos empreender, por todos os lados simultaneamente, a formaçom da organizaçom de que necessitamos? Por último, na parte final da brochura, espero mostrar que figemos tudo o que dependia de nós para evitar umha rotura definitiva com os «economistas», rotura que, entretanto, se mostrou inevitável; que a Rabótcheie Dielo adquiriu um significado especial, «histórico» se o quigerdes; porque reflectiu da maneira mais completa e com o maior relevo, nom o «economismo» conseqüente, mas antes a dispersom e as vacilaçons que fôrom o traço característico de todo um período da história da social-democracia russa; que, por conseqüência, a polémica com a Rabótcheie Dielo adquire também importáncia, por demasiado pormenorizada que à primeira vista nos pareça, pois nom podemos avançar sem liquidar definitivamente este período.
N. Lenine, Fevereiro de 1902.
[1] O artigo de V. I. Lenine Por Onde começar?, publicado como artigo de fundo do nº 4 do Iskra, contém respostas às questons mais importantes do movimento social-democrata da Rússia daquela época: o carácter e o contéudo principal da agitaçom política, as tarefas de Organizaçom e o plano de formaçom de um combativo partido marxista de toda a Rússia.
[2] Iskra (Faísca): primeiro jornal marxista ilegal de toda a Rússia, fundado por Lenine em 1900. Desempenhou um papel decisivo na criaçom do partido marxista revolucionário da classe operária. O primeiro númnero do Iskra leninista saiu à luz em Dezembro de 1900, em Leipzig. O Iskra converteu-se em núcleo de unificaçom das forças do partido e de selecçom e educaçom dos seus quadros. Numha série de cidades da Rússia (Petersburgo, Moscovo, Samara e outras) fôrom constituídos grupos e comités do POSDR de orientaçom leninista-iskrista, que em 1902 fundárom a organizaçom russa do Iskra. No II Congresso do POSDR, em Julho-Agosto de 1903, o Iskra foi proclamado órgao central do partido, e Lenine, Plekhánov e Mártov responsáveis pola sua redacçom. Após a recusa de Mártov para incorporar-se à mesma, Plekhánov acabou por aderir às posiçons mencheviques, reclamando a incorporaçom de redactores dessa tendência. Lenine nom aceita e abandona em Outubro de 1903. Finalmente, os mencheviques convertêrom o Iskra no seu próprio órgao. (N. Ed.)
[3] Rabótcheie Dielo (A Causa Operária) revista, órgao da «Uniom dos Social-democratas Russos» no estrangeiro. Foi editada em Genebra de Abril de 1899 a Fevereiro de 1902; aparecêrom doze números em nove volumes. A sua redacçom foi o centro dos «economistas» no estrangeiro.
[4] Economismo: Corrente surgida no seio dos social-democratas russos na segunda metade dos anos 90 do século XIX. Afirmavam que a tarefa do movimento operário consistia unicamente na luita económica pola melhoria da situaçom dos operários, isto é, reduçom da jornada de trabalho, aumento do salário, etc. Quanto à luita política contra o tsarismo, os «economistas» consideravam que devia ser travada pola burguesia liberal e nom polos operários. Opunham-se à criaçom do partido político independente da classe operária, negando o valor da teoria revolucionária para o movimento operário. (N. Ed.)
[5] Rabótchaia Gazeta (Jornal Operário): órgao clandestino dos social-democratas de Kíev. Saírom à luz somente dous números.
[6] Ab ovo: desde o princípio. (N. Ed.)